Três Lagoas

SOBREVOO! Crônicas de Marcio Ribeiro: LEVE MEU CANTO!

“Leve meu canto para todos os cantos e traduza esta mensagem para quem também tem um ouvido musical e solícito à empatia quanto ao seu…”.

“Estamos evoluindo! É o que sempre ouço no rádio e na televisão aqui desta casa maior onde se localiza a minha casinha. Faça frio ou calor sou todo ouvidos e não tem como fugir de assuntos que me são alheios, ou deixar de ouvir lamentos e contentamentos do povo que me circunda… Vivendo em meu cantinho há muito tempo, aprendi o idioma e me especializei a decifrar gestos e emoções. No entanto, as notas que emito por meio de meu canto não são traduzidas, tampouco os momentos de melancolia e tristeza… Caso fossem, não duvide (!), já estaria longe daqui…”.

“Aqui tenho comida e água todos os dias, enquanto sei que por aí muitos dos nossos não tem o que comer ou beber. Mas, como atentei um dia à letra de uma canção, ‘a gente não quer só comida… ’”.

“As pessoas ouvem o que emito e apreciam achando que estou feliz, mas acredito que elas não evoluíram o suficiente (tanto quanto dizem) para interpretar o que sinto de verdade, o que é uma pena. Ouvir a maioria ouve; quero ver decifrar com o coração as notas graves e agudas de meu canto… É esta evolução, tão divulgada e pouco praticada, que almejo nas pessoas daqui desse lugar…”.

“Mas hoje o meu dia foi diferente. Tanto que meu coração bateu mais forte quando te vi e gostaria de poder voar até você para lhe contar meus segredos e desejos. De minha caixinha, meu cubículo, senti algo em você que só percebia em tempos idos e livres com meus semelhantes, meus pais, meus irmãos e demais amigos iguais a mim. Sempre passas por aqui por perto. Eu lhe vejo pelas frestas da grande grade da casa. Porém, quando a pouco você passou em frente à residência aonde me encontro, passeando e conversando com suas cadelinhas Laila, Lya e Mel, senti que também posso me abrir contigo, contar sobre mim, minhas duras penas que passo diuturnamente neste lugar onde não bate o sol e os parcos raios de luz natural que vejo e sinto sempre chegam natimortos, mornos, escassos…”.

“Sei que conseguirá interpretar o meu canto! Por isso, peço encarecidamente que vá e o traduza… Entre os cuidados de seus afazeres e seus lazeres, emita essa nota por mim pedindo a todo o seu semelhante o que segue: que libertem os galos e os cães das rinhas de briga, os cavalos amarrados sob o sol sem água e comida, o gado esquelético dos cercados sem pasto, os animais maltratados e famintos; que resgatem os seres vivos silvestres e selvagens das matas em chamas, que salvem do abandono todos os animais domésticos, lhes dando alimento, abrigo, amor, carinho e afeto com LIBERDADE…”.

“Aliás, LIBERDADE é tudo que não possuo. Por isso esse canto em forma de lamento…”.

“Espero que meu pedido não lhe pese. Meu cantar é leve aos seus ouvidos tão sensíveis e acolhedores; tanto que pôde decifrá-lo! Leve meu canto para todos os cantos…”.

Ontem à tarde enquanto contemplava o pôr do sol passeando pelo bairro com minhas cadelas, passei em frente a uma casa e parei um pouco para ouvir o cantar de um passarinho… Pelo vão da grade grande, branca e bonita percebi o canto triste de um Canarinho. Ele estava preso em uma gaiola…

Crônica do poeta, escritor e servidor público municipal de Três Lagoas Marcio Ribeiro

OBSERVAÇÃO: A Crônica é um tipo de texto narrativo curto, possui também uma “vida curta”, ou seja, as crônicas tratam de acontecimentos corriqueiros do cotidiano que ‘chamam’ para a discussão de assuntos cotidianos.

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